A piada mais engraçada da história e os limites do humor negro

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O livro ‘Ha!’, escrito por um neurocientista, explica a ciência de quando e por que damos risada

Em uma terça-feira, 30 de janeiro de 1962, três estudantes de um internato religioso feminino em Kashasha (Tanzânia) começaram a rir. A risada delas era tão contagiante que as colegas que passavam por elas também caíam na gargalhada. A risada se espalhou por todas as salas de aula, até contagiar metade do colégio.

Quase uma centena de pessoas não conseguia parar de rir. Semanas se passaram e as pessoas continuavam rindo. A escola teve que fechar.

As meninas que voltaram para suas casas em outras cidades contagiaram seus vizinhos. A epidemia de gargalhadas atingiu Nshamba, uma cidade de 10.000 habitantes, onde centenas de pessoas também começaram a dar risada. Ao todo, 14 escolas foram fechadas e 1.000 pessoas sofreram surtos de riso incontrolável. A epidemia desapareceu 18 meses após ter começado e foi descrita em um estudo científico de 1963, publicado na revista especializada Central African Journal of Medicine.

Uma epidemia de riso na Tanzânia em 1962 fez com que 14 escolas fechassem e afetou cerca de mil pessoas

O caso é lembrado pelo neurocientista Scott Weems em seu livro Ha! A Ciência de Quando e Por Que Rimos ( ainda não publicado no Brasil). “Ha! é uma ideia. A ideia é que o humor e seu sintoma mais comum —o riso— são subprodutos de se possuir um cérebro que é baseado no conflito”, escreve Weems. O cérebro humano, explica, constantemente se adianta aos acontecimentos e gera hipóteses. “No entanto, às vezes leva ao conflito, por exemplo, quando tentamos lidar com duas ou mais ideias contraditórias ao mesmo tempo. Quando isso acontece, nosso cérebro só consegue pensar em uma coisa: rir.”

Apoiado por uma bibliografia de 135 estudos científicos, Weems descreve o humor como “nossa resposta natural ao conflito e à confusão”. O neurocientista, formado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), recorda que, apenas uma semana após os ataques de 11 de setembro de 2001, o comediante Gilbert Gottfried fazia uma apresentação no Friar’s Club, em Nova York. A cidade ainda cheirava a queimado. Os colegas que o precederam no palco não haviam tocado no tema dos ataques terroristas. Limitaram-se a fazer piada sobre o tamanho do pênis do convidado de honra da noite, o fundador da Playboy, Hugh Hefner. Mas Gottfried ganhou notoriedade quando o público aplaudiu uma de suas piadas sobre os muçulmanos. Com o microfone, proclamou:

– Esta noite tenho que sair cedo. Tenho que voar para Los Angeles. Não consegui um voo direto e terei de fazer uma escala no Empire State Building.

Todo mundo prendeu a respiração. Depois do silêncio, surgiram vaias e gritos de “Ainda é muito cedo para brincar com isso!”. Gottfried, um humorista com duas décadas de experiência no palco, enfrentava um público indignado, mas não se intimidou. Olhando para a plateia, começou uma nova piada:

—Muito bem. Um caça-talentos está sentado em seu escritório. Entra uma família: um homem, uma mulher, dois filhos e um cachorrinho. Então o caça-talentos pergunta: “Que tipo de show vocês sabem fazer?”.

 

As piadas sobre a tragédia do ‘Challenger’ surgiram cerca de 17 dias após o acidente

O que se seguiu foi uma sucessão de escatologia, bestialidade, incesto e sexo depravado sem tabus, “literalmente a piada mais suja do mundo”, disse Weems. O público explodiu em gargalhadas. “A apresentação foi tão memorável que fizeram um filme sobre a piada, com a atuação de Gottfried como clímax, intitulada Os Aristocratas”, lembra.

Quando se pode brincar com uma tragédia? Onde estão os limites do humor?Weems lembrou que, em 1986, após a explosão do ônibus espacial Challenger, com sete tripulantes a bordo, uma piada ficou muito popular: “O que significa a sigla NASA? Necessitamos Agora de Sete Astronautas”. Um estudo mostrou que as piadas sobre a tragédia surgiram cerca de 17 dias após o acidente. A morte da princesa Diana teve um período de pausa mais curto. E o dos ataques terroristas de 11 de Setembro foi muito mais longo. O autor do estudo, Bill Ellis, da Universidade Estadual da Pensilvânia, classificou as piadas sobre o Challenger por data e local de ocorrência. O acidente foi em 28 de janeiro de 1986. Em 22 de fevereiro, na cidade de Shippensburg, contava-se esta piada: Você sabe qual é a bebida oficial da NASA? Seven Up (sete acima, em inglês).

“Nosso fascínio pelo humor negro demonstra a imensa variedade de piadas de mau gosto: as que têm a ver com o Challenger, a Aids e Chernobyl, para citar apenas algumas”, diz Weems. Armado com publicações em revistas especializadas, o neurocientista argumenta que o humor negro não é cruel. “Inventar alternativas para explicar a sigla Aids é divertido para algumas pessoas, mas gritar ‘hahaha, você é doente!’, em uma ala de oncologia não é engraçado para ninguém. Rimos de piadas sobre grupos ou acontecimentos apenas quando provocam reações emocionais complexas, mas sem essas reações não temos outra maneira de responder”, reflete.

Não há uma só piada que agrade a todos. O humor é idiossincrático, porque depende daquilo que nos torna únicos: como lidamos com a discrepância que prevalece em nosso cérebro complexo”, diz. A melhor prova disso foi um experimento realizado pelo psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido). Em 2001, ele lançou um site com a ajuda da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, com o objetivo de encontrar a piada mais engraçada do mundo. Recebeu 40.000 piadas e um milhão e meio de votos. A vencedora foi:

O animal mais engraçado é o pato e 18:03 é a hora mais hilária do dia, segundo um estudo

Dois caçadores de Nova Jersey estão andando pela floresta quando um deles cai no chão. Dá a impressão de que não respira e tem os olhos vidrados. Um deles pega o telefone e liga para o serviço de emergência. Diz, ofegante: “Acho que meu amigo está morto! O que devo fazer?”. O operador responde:

“Acalme-se. Vou ajudá-lo. Primeiro, certifique-se de que ele está morto.” Há um silêncio e, em seguida, ouve-se um disparo. De volta ao telefone, o caçador diz: “Ok, e agora?”.

A piada mais engraçada do mundo não tem muita graça, concordam Wiseman e Weems, e isso tem uma explicação científica. “Como nem todo mundo gosta que as piadas sejam provocadoras, as mais populares costumam agrupar-se perto, embora ainda abaixo, do limiar da provocação mais habitual. Se uma piada passar muito desse limite, algumas pessoas se acabarão de rir, mas outras não rirão nada. Se ficar muito aquém, todos permanecerão frios”, explica Weems.

O experimento de Wiseman serve para tirar algumas conclusões sobre as piadas. As mais divertidas tinham em média 103 letras. O animal mais engraçado é o pato. A hora mais hilária do dia são 18h03. E o dia mais espirituoso do mês é o 15. Quanto às nacionalidades, os norte-americanos mostraram “uma clara afinidade por piadas que incluíam insultos ou vagas ameaçadas”. Esta piada em inglês sobre um texano e um graduado em Harvard fez muito sucesso nos Estados Unidos e pouco fora de suas fronteiras:– Texano: De onde você é? (Where are you from?)– Graduado em Harvard: De um lugar onde não terminamos as frases com uma preposição.– Texano: Muito bem, de onde você é, imbecil? (OK, where are you from, jackass?) Os europeus, por outro lado, mostraram predileção por piadas absurdas ou surrealistas, como esta: Um paciente diz: “Doutor, ontem à noite tive um lapso freudiano. Estava jantando com minha sogra e quis dizer: “Poderia me passar a manteiga?”. Mas em vez disso disse: “Vaca estúpida, você destruiu minha vida completamente”.

Esta outra piada agradou a mais da metade dos homens, mas só 15% das mulheres: Um agente de polícia pergunta a um homem que ia pela estrada: “Sabe que sua mulher e seu filho caíram do carro um quilômetro atrás?”. O homem sorri e exclama: “Graças a Deus! Pensei que estivesse ficando surdo!”.

“O humor – especialmente o ofensivo – é idiossincrático. Cada um possui seu próprio limiar do que considera ofensivo e reage de maneira muito diferente quando se cruza esse limiar”, afirma Weems. Nas páginas da Ha!, o neurocientista recorda a teoria do médico Sigmund Freud de que o humor é nossa maneira de resolver o conflito interior e a ansiedade. “Embora hoje em dia poucos cientistas levem Freud a sério, quase todos reconhecem que há pelo menos algo de verdade em sua teoria. As piadas que não conseguem nos incomodar nem um pouco não triunfam. É o conflito de querer rir, e ao mesmo tempo não ter certeza se deveríamos, que torna as piadas satisfatórias”, assinala Weems.

Quanto à epidemia de risada da Tanzânia, o autor acredita que “seria fácil afirmar que as meninas simplesmente experimentaram uma crise nervosa”. Uma interpretação sustenta que sofreram uma histeria coletiva causada pela tensão de uma grande mudança social. Em dezembro de 1961, o país tinha se tornado independente do Reino Unido e a escola tinha abandonado a segregação racial. Além disso, as alunas eram adolescentes, em plena puberdade, e as pressões eram tremendas, conforme destaca Weems.

“Ao pedir a elas que vivessem em dois mundos de uma vez – nem britânico nem africano, nem branco nem negro, nem adulto nem infantil, mas uma combinação de ambas as coisas – não conseguiram ir adiante. Mas a risada não é uma crise nervosa. […] É um mecanismo de luta, uma maneira de confrontar o conflito. Às vezes esse conflito se apresenta em forma de piada. Às vezes é algo mais complicado”.

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