Lista Completa De Poetas Brasileiros

A poesia brasileira é uma das melhores na história da literatura universal. Dos exageros barrocos à diversidade contemporânea, ela passa pelos preciosismos parnasianos, a mística simbolista, a paixão política dos árcades inconfidentes, o estilo gótico dos poetas românticos, a antropofagia modernista, o vanguardismo dos concretistas e a poesia quase improvisada de Leminski. A trajetória da poética em nosso país teve início com os versos religiosos de José de Anchieta e atravessou diversas escolas até desaguar no que os críticos intitulam de movimento pós-modernista. A lírica, reconhecida por sua alta dose de subjetividade, ocupou um espaço importante na literatura brasileira, traduzindo as emoções do sujeito. À vertente existencialista, marcada pelas vivências e dilemas da vida, filiam-se poetas como Drummond e Vinícius de Moraes.

Os poemas de cunho social também se destacaram em nossas terras, principalmente os poemas abolicionistas de Castro Alves.

 

José de Anchieta

nasceu na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534. Seu pai, Juan López de Anchieta, de tradicional família basca, foi revoltoso integrante da Revolta dos Comuneros, que se rebelou contra o Imperador Carlos V, da Espanha. De sua mãe ele herdou o sangue dos cristãos-novos, judeus convertidos.

O futuro padre cresceu cultivando grande devoção à Virgem Maria. Além dele, mais dois irmãos seguiriam a vida eclesiástica. Ao alcançar a adolescência ele foi para Coimbra, em Portugal, para aí estudar filosofia no Colégio das Artes. Depois deste período acadêmico, ele entrou na Companhia de Jesus, em 1551.

Ele veio para o Brasil ainda como noviço, integrante da equipe de Duarte da Costa, nomeado segundo governador geral, com a tarefa de catequizar os indígenas brasileiros, a pedido do Padre Manuel da Nóbrega, em 13 de junho de 1553. Neste país ele ajudou a instituir no Planalto de Piratininga o Colégio de São Paulo, núcleo inicial da futura metrópole, no dia 25 de janeiro de 1554. Pouco a pouco, em torno dele se forma um pequeno povoado, mais tarde nomeado como São Paulo pelo Padre Anchieta.

Em São Vicente o padre aprende a língua tupi e se torna um defensor dos índios, protegendo-os contra o excesso de maus tratos exercido pelos portugueses, que ameaçavam torná-lo escravos e deles afastar seus familiares. Junto ao seu mestre, Manuel da Nóbrega, ele participa de várias missões de paz, quando então se entrega como refém aos índios tamoios em Iperoig, ao tentar conciliar os colonizadores e a Confederação dos Tamoios. Enquanto permanecia preso, ao longo de cinco meses, criou o Poema à Virgem. Conta-se que ele o teria composto nas areias da praia e guardado em sua memória, mais tarde vertendo-o para o papel.

O Padre combateu os franceses, que haviam se fixado na França Antártica, então localizada na Baía da Guanabara, e também foi amigo de Estácio de Sá, ao qual acompanhou na própria morte, em 1567. Um ano antes, havia se tornado sacerdote, já com 32 anos. Obtendo êxito na derrota dos franceses, Anchieta, junto com Manuel da Nóbrega, convence o Governador-Geral Mem de Sá a prender e eliminar um huguenote – protestante francês -, Jacques Le Balleur, considerado pela Igreja como herege. Diz-se que o padre o teria matado com suas próprias mãos, diante da hesitação do carrasco, versão negada por alguns estudiosos.

Em 1539 o religioso edificou o povoado de Iritiba, atualmente conhecido como Anchieta, no Espírito Santo. Durante dez anos foi Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, e antes de poder descansar definitivamente em Iritiba, a partir de 1595, administrou por algum tempo o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo. Morreu então no território capixaba por ele fundado, aos 63 anos. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 1980, e nomeado “Apóstolo do Brasil”.

Ao longo de sua vida o padre criou muitos autos, cartas e poesias de natureza espiritual. Foi gramático, poeta, teatrólogo e historiador. Sua obra foi composta em quatro idiomas – português, castelhano, latim e tupi -, e seus poemas são considerados literariamente superiores aos seus autos.

 

Cláudio Manuel da Costa

Poeta que pertenceu ao estilo de época chamado Arcadismo. Inclusive sua obra Obras marcou o início deste movimento no Brasil.

O Arcadismo, ao contrário do Barroco, propunha uma literatura mais simples. O nome Arcadismo deriva de Arcádia (região grega onde, segundo a mitologia, viviam poetas e pastores).

Os escritores desta época tinham uma visão mais tranqüila em relação à vida, ou seja, sem ânsias ou angústias.

Nesse período, as obras poéticas citavam elementos da natureza e os autores gostavam de falar sobre dramas sentimentais e amorosos.

Cláudio Manuel da Costa nasceu em Mariana (Minas Gerais) em 5 de junho de 1729 e faleceu em Vila Rica (também em Minas) no dia 4 de junho de 1789. Escreveu poesias líricas, um poema épico – Vila Rica – e obras menores, porém a parte mais destacada da sua produção são as poesias líricas, nelas o poeta se mostrou influenciado, sobretudo por Camões.

Cláudio Manuel da Costa foi um rico advogado, estudou e fez doutorado em Coimbra (Portugal).

É considerado um poeta de transição e seu codinome era Glauceste Satúrnio. Porém, foi preso por causa da sua participação na Inconfidência Mineira. Na prisão, após denunciar seus amigos cometeu suicídio.

 

Carlos Drummond de Andrade

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considerado um dos maiores representantes da literatura brasileira do século XX. Sua carreira poética pode ser dividida em 4 fases. Cada uma delas é composta por obras que nos permitem acompanhar a evolução de seus temas e sua visão de mundo.

A 1ª fase (a fase gauche) tem como características o pessimismo, o isolamento, o individualismo e a reflexão existencial. Nota-se nesta fase um desencanto em relação ao mundo.

Obras

“Alguma Poesia” (1930)
“Brejo das Almas” (1934)

Características dessas obras: ironia, o humor e a linguagem coloquial.

A 2ª fase, chamada fase social, é marcada pela vontade do poeta de participar e tentar transformar o mundo, o pessimismo e o isolamento da 1ª fase é posto de lado. O poeta se solidariza com os problemas do mundo.

Obras

“Sentimento do mundo” (1940)
“José” (1942)
“Rosa do Povo” (1945)

A 3ª fase pode ser dividida em 2 momentos: poesia filosófica e poesia nominal.

Poesia Filosófica: textos que refletem sobre vários temas de preocupação universal como a vida e a morte.

Obras

“Fazendeiro do ar” (1955)
“Vida passada a limpo” (1959)

Poesia Nominal: repletas de neologismos e aliterações.

Obras

“Lição de coisas” (1962)

A fase final (o tempo das memórias)

Como o próprio nome já diz, as obras desta fase (década de 70 e 80), são cheias de recordações do poeta. Os temas infância e família são retomados e aprofundados além dos temas universais já discutidos anteriormente.

Obras

“Boitempo”
“Boitempo III”
“As impurezas do branco”
“Amor Amores”

Drummond também escreveu contos e crônicas:

Conto: “Contos de Aprendiz”

Crônica: “Passeios na Ilha”, “Cadeira de balanço”, “Os dias lindos”.

Curiosidade

Após a sua morte descobriu-se um conjunto de poemas eróticos que ele mantinha em segredo intitulado “O amor natural” (1992).

 

Manuel Bandeira

Manuel Carneiro de Souza Filho, nasceu em 19 de abril de1886 em Pernambuco e depois mudou-se para o Rio de Janeiro com sua família.

Queria ser arquiteto, porém a tuberculose não permitiu. Passou por vários lugares para se tratar, dentre eles a Suíça (entre 1916 – 1917). Lá, conheceu o escritor Paul Éluard, que estava internado na mesma clínica. Numa de suas conversas com Éluard, Manuel Bandeira ficou sabendo sobre as inovações artísticas que aconteciam na Europa e as possibilidades do verso livre na poesia. Aliás, hoje, Bandeira é considerado o Mestre do Verso Livre no Brasil.

Obs: o verso livre não segue regras estabelecidas, o escritor cria seus próprios critérios.

Exemplo:

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
– O que eu vejo é o beco.

(Estrela da vida inteira)

No primeiro verso temos uma visão aberta para o mar e o horizonte; já no segundo, a visão é mais curta, vemos apenas o beco.

Manuel Bandeira descobriu a poesia enquanto estava doente e longe da vida agitada da maioria dos jovens.

Temas Mais Comuns Nas Suas Obras
-Paixão pela vida
-Morte
-Amor
-Erotismo
-Solidão
-Angústia
-Cotidiano
-Infância

Obras
– A cinza das horas (1917)*
– Carnaval (1919)*

*Obras com certa liberdade formal e influências pós-simbolistas.

  • Ritmo dissoluto (1924): obra de transição que apresenta temas populares e linguagem simples. O livro contém os poemas Meninos carvoeiros, Na Rua do Sabão, Noite morta.

  • Libertinagem (1930): é com esta obra que Manuel Bandeira atinge o seu auge como escritor modernista. Este livro contém o famoso poema Pneumotórax.

  • Estrela da manhã (1936)*

  • Lira dos cinqüent’anos (1948)*

  • Belo belo (1948)*

  • Opus 10 (1952)*

  • Mafuá do malungo (1954)*

*Todas estas poesias estão incluídas no livro Estrela da vida inteira (1965).

Manuel Bandeira era um poeta que usava o cotidiano e todas as coisas simples da vida para compor a sua poesia.

Poema tirado de uma noticia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Estrela da vida inteira)

O seu convívio com pessoas humildes fez com que o poeta se interessasse pelas coisas simples do nosso cotidiano. Manuel Bandeira quis aproximar a poesia e a cultura popular.

Outras Obras

  • Crônicas da província do Brasil (1937)
  • Itinerário de Pasárgada (1954)
  • Andorinha, andorinha (1965)
  • Os reis vagabundos e mais 50 crônicas (1966)

Pasárgada é um mundo fictício. O poeta o criou para que ele pudesse fugir da realidade, já que teve um sério problema de saúde e não pode viver plenamente.

Vou-me embora para Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Esse poema foi musicado por Gilberto Gil em 1986.
Manuel Bandeira, embora indiretamente, participou as Semana de Arte Moderna, em 1922.

Nessa época, o grande escritor, morava no Rio de Janeiro e estava distante do grupo paulista que queria mudanças e atacava a cultura oficial.

O escritor preferiu ficar isolado, embora fosse grande amigo de Mário de Andrade.
Sua colaboração com a Semana de 22 foi com o poema “Os sapos”, que foi lido por Ronald de Carvalho em meio a vaias e gritarias.

Em 1938, foi nomeado professor de Literatura do Colégio Pedro II, e em 1940, tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Em 43, tornou-se professor de Literatura Hispano-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia (atual Faculdade de Educação da UFRJ).

Manuel Bandeira foi crítico de artes, tradutor, fez diversas conferências e escreveu as biografias de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves. Também recebeu vários prêmios.

Quando completou 80 anos, recebeu várias homenagens, porém 2 anos depois, seu estado de saúde se agravou e no dia 13 de outubro de 1968, o grande escritor partiu deixando para trás em conjunto de obras que até hoje são admiradas pela critica e, principalmente, pelo público.

 

Vinícius de Moraes

Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913 e morreu em 9 de julho de 1980 no Rio de Janeiro.

Vinicius é um os maiores compositores brasileiros e um dos fundadores do movimento Bossa Nova. São dele estes versos:

“Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa”

“Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos seus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que é isso, meu Deus,
Que frio que me dá o encontro desse olhar”

Porém, muitos não sabem que ele também foi um grande poeta da Segunda Fase do Modernismo Brasileiro (1930 – 1945)

Veio de uma família de intelectuais e em 1928 começou a compor músicas. É formado em Letras e Direito. Em 1933, publicou seu primeiro livro de poemas: O caminho para a distância. Foi crítico de cinema e diplomata (morou em Los Angeles, Paris e Montevidéu) e conheceu artistas do mundo todo.

Em 1956, publicou a peça teatral Orfeu da conceição e obteve muito sucesso.
A primeira fase da poesia de Vinicius de Moraes é marcada pela preocupação religiosa, angústia e a vontade de superar as dores deste mundo.

Já a segunda fase, apresenta versos longos com uma linguagem abstrata, alegórica e declamatória.

No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.

Em 1943, publica Cinco Elegias, nessa obra o escritor se aproxima mais com os temas simples da vida, explora com sensualidade o amor e a mulher, faz uso de verso livre e a comunicação é mais direta.

SONETO DE DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez… — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Vinicius de Moraes também escreveu poesia social, ou seja, uma poesia engajada, preocupada com os problemas enfrentados pela população. Um bom exemplo do envolvimento de Vinicius de Moraes nessa área é o poema Operário em Construção (1956).

Nesse poema o escritor usa uma linguagem simples e direta, além de se mostrar solidário com essa classe oprimida. Através de suas palavras o poeta tenta conscientizar os leitores.

OPERÁRIO EM CONTRUÇÃO

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
(…)
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, Cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
(…)

A partir da década de 60, Vinicius de Moraes começou a se afastar da Literatura e passou a se dedicar à música.

Começou a fazer shows com Dorival Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo, Baden Powell, Toquinho, Chico Buarque.

Vinicius morreu em 9 de julho de 1980 de edema pulmonar e até hoje lemos e ouvimos suas canções e poesias, foi um dos escritores e compositores mais populares da cultura brasileira.

Outras Obras
– Para viver um grande amor (1962)
– Para uma menina com uma flor (1966)
– Forma e exegese
– Ariana, a mulher
– Poemas, sonetos e baladas
Etc.

 

Manoel de Barros

O poeta Manoel Wenceslau Leite de Barros, mais conhecido como Manoel de Barros, nasceu no Beco da Marinha, em Cuiabá, estado do Mato Grosso, no dia 19 de dezembro de 1916. Seu pai, João Venceslau Barros, famoso capataz naquelas terras, decidiu erguer uma pequena fazenda quando o garoto tinha apenas um ano de idade, no coração do Pantanal. Faleceu no dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos de idade.

A criança, apelidada de Nequinho por sua família, passou sua infância sentindo a textura da terra nos pés, brincando e correndo entre personagens que definiriam sua obra, os currais e os objetos que chamavam a atenção do futuro escritor. Em idade escolar, foi para um colégio interno em Campo Grande e posteriormente para o Rio de Janeiro. Estudar não calava fundo na mente inquieta do menino até ele entrar em contato com os livros do Padre Antônio Vieira e descobrir que não precisava assumir nenhuma responsabilidade com a prática da verdade na literatura, e sim com a verossimilhança.

Aos 19 anos, Manoel de Barros escreveu seu primeiro poema, e a partir de então sua veia poética não mais deixou de pulsar. Ele conheceu a liberdade criativa ao mergulhar em Une Saison en Enfer, de Arthur Rimbaud, pois aí se deu conta do rico material sensitivo à disposição do poeta, pronto para despertar e se traduzir nas páginas em branco. O escritor teve sua fase de militância política, engajou-se no Partido Comunista, e deixou de ser preso graças ao seu primeiro livro, que não chegou a ser publicado, pois a única cópia foi confiscada por um policial no lugar do jovem Manoel. Mas abandonou o Partido quando se desapontou profundamente com Prestes. Neste momento, decidiu voltar para o Pantanal.

Ainda não estava pronto, porém, para criar raízes neste local, pois o mundo o aguardava. Passou um período na Bolívia e no Peru, depois partiu para Nova York, onde residiu por um ano, estudando cinema e pintura, povoando assim sua poesia com as imagens mais ricas e distintas. Ao retornar para seu país, o poeta conhece Stella, sua futura esposa. Hoje eles continuam juntos, em Campo Grande, ao lado de uma família linda, com três filhos, Pedro, João e Marta, e sete netos.

Depois de tantas aventuras, formado em Direito em 1949, no Rio de Janeiro, o poeta finalmente se decide pelo Pantanal e lá se fixa, tornando-se fazendeiro como o pai. Sua primeira obra nasceu no Rio de Janeiro e lá despertou para o público, há mais de sessenta anos, e foi batizada de Poemas Concebidos sem Pecado, lançada em pequena tiragem, com a ajuda de um grupo de amigos. Foi o primogênito de tantos outros que viriam.

O poeta ganhou prêmios importantes, como o Prêmio Orlando Dantas, em 1960, doado pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Compêndio para Uso dos Pássaros. Sua obra posterior, Gramática Expositiva do Chão, foi contemplada com o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, enquanto Sobre Nada ganhou outra honraria, desta vez de contexto nacional.

 

Mário Quintana

é um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Nasceu no Rio Grande de Sul no dia 30/07/1906 e foi escritor, jornalista e tradutor.

Em 1934, seu primeiro livro traduzido foi publicado: Palavras e Sangue de Giovanni Papini (escritor italiano). Trabalhou como tradutor da Editora Globo e com isso pôde traduzir autores consagrados como: Proust, Virginia Woolf e Voltaire. Através de suas traduções, muitos brasileiros puderam e ainda podem conhecer parte da Literatura Universal.

Paralelo ao seu trabalho em editoras e jornais escrevia poemas, poesias e contos.

Em 1926, seu conto A Sétima Personagem foi premiado pelo jornal Diário de Notícias de Porto Alegre.

Em 1930 a Revista do Globo e o Correio do Povo publicaram seus poemas.

Em 1939 teve a felicidade de ter um livro encomendado por Monteiro Lobato, além dele Mário Quintana tinha vários admiradores: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira.

Apesar disso, não conseguiu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Mas, esse fato não o abalou, pelo contrário, foi por causa disso que ele escreveu o famoso Poeminho do Contra:

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Algumas Obras

  • A Rua dos Cataventos
  • Canções
  • O Aprendiz de Feiticeiro
  • Caderno H.
  • Pé de Pilão (com introdução de Érico Veríssimo)

Em 1962 foi publicado Poesias, volume único que reune as obras: A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato Florido, Espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro.

Curiosidades

  • Participou da Revolução de 1930
  • Trabalhou sob a direção de Érico Veríssimo
  • Ganhou o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre em 1967
  • Recebeu o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira pelo livro Apontamentos de História Sobrenatural
  • Recebeu em 1980 o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra
    Participou da coleção didática Para Gostar de Ler junto com Cecília Meireles e Vinicius de Moraes

O Príncipe dos Poetas Brasileiros (como era conhecido) faleceu no dia 5 de maio de 1994 com quase 90 anos.

 

Cecília Meireles

Um dos maiores nomes da Literatura Brasileira e também da segunda geração modernista no Brasil.

Ela e Rachel de Queiroz foram as primeiras mulheres a conquistar o reconhecimento na nossa literatura.

Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 7 novembro de 1901.

Perdeu os pais ainda criança e foi criada pela a avó materna (Jacinta, única pessoa viva da família) e pela babá (Pedrina). As duas contavam histórias para Cecília: a avó contava fatos e lendas sobre a terra dos seus antepassados (arquipélago de Açores) e Pedrina falava do folclore.

Em 1910, concluiu o curso primário e recebeu das mãos do poeta Olavo Bilac (o inspetor de ensino na época) uma medalha de ouro com seu nome gravado, prêmio pelo esforço e dedicação durante o curso. Alguns anos depois, formou-se em professora primária. Exercia o magistério ao mesmo tempo que colaborava com quase todos os jornais e revistas cariocas. Estudou também línguas, canto e violino.

Em 1919 (aos 18 anos), lançou seu 1º livro de poemas “Espectros” (elogiado pela crítica).

Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do país e em 1935 começou a lecionar Literatura Luso-Brasileira e Técnica e Crítica Literária na Universidade do Distrito Federal, a dar cursos e a fazer conferências em vários países.

Teve três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda (atriz que participou da novela Dona Beija, em 1986, da antiga Rede Manchete).

Embora seja mais conhecida como poetisa, nos deixou também contos, crônicas, literatura infantil e folclore (chegou a ser reconhecida internacionalmente como uma grande conhecedora do assunto).

Cecília Meireles foi leitora, admiradora e tradutora dos poetas Tagore (Hindu), Li Po (chinês) e Bashô (japonês).

Ela nunca esteve filiada a nenhum movimento literário, porém algumas publicações iniciais (“Espectros”, “Baladas para El-Rei”) revelam alguma ligação com o Simbolismo.

Sua poesia é intimista e reflexiva (com um tom filosófico), de profunda sensibilidade feminina. Em suas obras ela aborda temas como vida, amor e tempo. A musicalidade (uma das características do Simbolismo) também está presente em seus escritos.

ALGUMAS DE SUAS OBRAS
“Espectros” (poesia)
“Baladas para el-rei” (poesia)
“Mar Absoluto” (poesia)
“Romanceiro da Inconfidência” (poesia)
“Ou isto ou aquilo” (poesia – obra voltada para o público infantil)
“Escolha o seu sonho” (prosa)
“Olhinhos de gato” (prosa)
“Viagem” (poesia)
“Vaga Música” (poesia)
“O aeronauta” (poesia)
“Cânticos” (poesia)
“O que se diz e o que se entende” (prosa)

Participou também das seguintes antologias:
“Antologia poética”
“Seleta em prosa e verso”
“Cecília Meireles”
“Flor de Poemas”

Cecília Meireles, através de suas próprias experiências de vida, procurou questionar e compreender o mundo em que vivia.

Todas essas indagações, tristezas e desencantos, marcaram sua poesia, enchendo sua obra de lirismo.

Faleceu no dia 9 de novembro de 1964. Recebeu, postumamente, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

 

Hilda Hilst

A poeta, escritora e dramaturga Hilda Hilst nasceu em 21 de abril de 1930, na cidade interiorana de Jaú, no Estado de São Paulo. Era a única filha de Apolônio de Almeida Prado Hilst, fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta, e de Bedecilda Vaz Cardoso. Quando ainda era muito nova, seus pais decidiram se separar, e assim ela se transferiu com a mãe para Santos. Seu pai passou boa parte da existência, a partir dos 35 anos, internado em um sanatório, na cidade de Campinas, pois era portador de uma esquizofrenia incurável.

Hilda estudou em colégio interno durante oito anos, transferindo-se em 1945 para o curso clássico do Mackenzie. Nesta época ela residia com uma governanta em um apartamento localizado na Alameda Santos. Ao completar 16 anos ela finalmente foi visitar o pai, recolhido em sua fazenda, mas ao fim de três dias ela não mais suportou as crises paternas.

Orientada pela mãe ela ingressa, em 1948, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, pertencente à Universidade de São Paulo, graduando-se em 1952. Este período acadêmico marcou o início de sua vida na boemia, estilo que ela preservou até 1963. Sua melhor amiga nos meios universitários foi a escritora Lygia Fagundes Telles, a quem ela foi escolhida para recepcionar em 1949, na Faculdade, quando ela lançou sua obra de contos O Cacto Vermelho.

Hilda era admirada e desejada por empresários, poetas, até mesmo Vinicius de Moraes, e artistas os mais diversos, por possuir uma beleza sem igual. Em 1950 ela publica sua primeira obra, Presságio, seguida de Balada de Alzira, editada em 1951. Com o término da Faculdade, ela lança Balada do Festival.

Em 1957 ocorre um fato curioso, a escritora parte para a Europa e vivencia um breve namoro com o ator Dean Martin. Ela segue se dedicando cada vez mais à literatura, inspirando seu primo José Antônio de Almeida Prado a compor a Canção para soprano e piano, entre outras obras, e influenciando também os compositores Adoniran Barbosa e Gilberto Mendes. No ano de 1966 ela toma uma decisão crucial em sua vida e na sua carreira literária, transferindo-se para a Casa do Sol, chácara localizada perto de Campinas, em busca da solidão para melhor desenvolver seu processo criativo. Ali ela reuniu, ao longo de muitos anos, escritores e artistas.

A escritora produziu uma vasta obra, por um período de quase cinquenta anos, recebendo por ela os prêmios mais importantes da Literatura e da Dramaturgia, como o Prêmio PEN Clube de São Paulo, pelo livro Sete Cantos do Poeta para o Anjo, e o Prêmio Anchieta pela peça O Verdugo.

Em 1968 ela se casa com o escultor Dante Casarini, passando a residir com ele no mesmo refúgio em que se encerrara para produzir sua obra, tão irreverente quanto o comportamento da escritora, muito moderno para sua época, abordando temas como o homossexualismo e o lesbianismo. Ela escreveu, entre outros, Presságio, Balada de Alzira Balada do festival, Roteiro do Silêncio, Trovas de muito amor para um amado senhor, Ode Fragmentária ( Poesia); Fluxo – Floema, Qadós, Ficções (Ficção); A Possessa, O rato no muro, O visitante (Teatro). Hilda Hilst partiu desta vida em 4 de fevereiro de 2004, em Campinas.

 

Adélia Prado

Adélia Prado. Foto: Reprodução.

Adélia Luiza Prado de Freitas nasceu em 1936 em Divinópolis-MG, onde cresceu e se educou. Formou-se em Filosofia e trabalhou como professora. Em 1971 publicou o livro de poemas “A Lapinha de Jesus”, junto com Lázaro Barreto. Cinco anos depois foi que publicou sozinha seu primeiro livro, Bagagem (1976), revelando uma artista de extrema originalidade e lirismo. Publicou depois “Coração Disparado” (1978), coletânea que trouxe a consagração merecida, trazendo-lhe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro de São Paulo.

Adélia Prado. Foto: Reprodução.

Seus poemas, contos e romances registram o cotidiano das pequenas cidades interioranas, com fortes manifestações de religiosidade. “Lá estão as comadres, as santas missões, as formigas pretas, o angu, as tanajuras, as pessoas na sombra com faca e laranja”, afirma Afonso Romano no prefácio da coletânea “Coração Disparado”. Adélia faz poesia como quem está com o caderno ao lado do fogão, dizendo verdades que não foram ditas pelos “poetas” até então. Isso ela faz num tom mágico e fantástico, recriando a vida do interior mineiro por meio de uma linguagem inovadoramente feminina, isto é, ela não repete a mesma linguagem usada pelos poetas modernistas, nem seus poemas versam sobre imagens desgastadas como “noite-canto-solidão”.

“Tem cheiro especial
as bolas de carne cozinhando
O cachorro olha pra gente
com um olho piedoso
mas eu não dou
Comida de cachorro é muxiba,
resto de prato.”

(EH!, “Coração Disparado”)

O grande mérito de Adélia Prado é que ela explora temas como a família, elemento praticamente descartado pelos poetas brasileiros, que preferem falar nas amantes, quando muito em noivos e noivas. Afonso Romano afirma que parece que, de todos os poetas, só ela tem marido e filhos, cuida da casa, do quintal, das hortaliças. Ela valoriza a vida nas menores coisas, como os afazeres da casa, até as mais comuns, como a gravidez no poema “Esperando Sarinha”, que revelam os mais simples desejos e expectativas de uma gestante.

“Sara é uma linda menina ainda mal-acordada.
Suas pétalas mais sedosas estão ainda fechadas,
dormindo de bom dormir.
Quando Sarinha acordar, (…)
Duas horas vai gastar fazendo tranças e castelos.”

Além disso, ela incorpora em sua obra a presença da mulher concreta em si mesma, capaz de revelar uma eroticidade ausente na nossa “poesia feminina” convencional. Desta forma, revela uma mulher que vai além das ideologias, dos preconceitos, destemida a ponto de descartar a maneira masculina de enxergar o mundo e os clichês da ideologia literária e social.

“fazia tarde bonita quando me inseri na janela entre meus tios
e vi o homem com a braguilha aberta
e pé de rosa-doida enjerizado de rosas”

Alguns de seus poemas dialogam com os de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Drummond, mas só para marcá-los de uma maneira surpreendentemente inovadora. Seu primeiro livro começa com o poema “Com Licença Poética”, onde ela retoma pelo avesso o gauche de Drummond. Outra releitura bastante interessante é a que ela faz do poema “No meio do caminho”, também de Drummond: “Achei engraçado quando o poeta tropeçou na pedra / Eu tropeço na lei de jugo suave: ‘Amai-vos’”.

A poesia de Adélia Prado revela uma constante alegria de estar viva, mesmo diante de tantas adversidades. Até mesmo os palavrões que ela usa em seus textos aparecem com tanta naturalidade, que quase passam despercebidos. E aqui cabe uma consideração importante: o modernismo “dessacralizou” apenas a gramática, mas a linguagem continuou sendo a mesmo “casta e burguesa” de sempre. A obra de Adélia mostra que, como disse Afonso Romano, “é natural que se escreva como se fala, porque se fala como se vive”.

O perfume das bananas é escolar e pacífico.
Quando mamãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar de aula,
eu achei morrer muito violoncelírico.
Abriam-se as pastas no começo da aula,
os lápis de ponta fresca recendiam.
O rapaz de espinhas me convocava aos abismos,
nem comia as goiabas,
desnorteada de palpitações.
Filho-da-puta se falava na minha casa,
desgraçado nunca, porque graça é de Deus.
No teatro ou no enterro,
o sexofone me põe atrás do moço,
porque as valsas convergem, os lençóis estendidos,
abril, anil, lavadeira no rio,
os domingos convergem.
O entre-parênteses estaca pra convergir com mais força:
no curso primário estudei entusiasmada o esqueleto humano da galinha.
Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza.
Por algum motivo fui parida incólume,
entre escorpiões e chuva.

(CÓDIGOS, “Coração Disparado”)

Fontes
SANT’ANNA, Affonso Romano. Adélia: a Mulher, o Corpo e a Poesia. IN: PRADO, Adélia. Coração Disparado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1979.

 

Cora Coralina

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, mais conhecida como Cora Coralina nasceu em Goiás em 20 de agosto de 1889 e faleceu em Goiânia em 10 de abril de 1985.

Escreveu contos, poemas, poesias e até mesmo literatura infantil, colaborou para jornais, foi proprietária de estabelecimentos e doceira por mais de 20 anos.

Não teve muito estudo, fez apenas o primário com Mestra Silvina entre os anos de 1899 e 1901. Nessa época publicou seu primeiro conto – Tragédia na Roça – que foi publicado no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás. Sua obra poética fala sobre o cotidiano simples do interior de Goiás.

Após o matrimônio se mudou para SP onde ficou por mais de 40 anos. Com a morte do seu marido passou por muitas dificuldades: teve que acabar de criar os filhos, vendeu livros, lingüiça caseira e banha de porco feitos por ela mesma. Somente em 1956, retornou para Goiás.

Embora seja um nome forte na nossa Literatura, sua obra recebeu várias influências, como por exemplo, o nosso folclore, grandes escritores de épocas passadas (Gregório de Matos, Camões e Olavo Bilac), o codificador da doutrina espírita Allan Kardec e até mesmo as histórias da Carochinha.

OBRAS
– Estórias da Casa Velha da Ponte (contos)
– Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais
– Meninos Verdes (infantil)
– Meu livro de cordel
– O tesouro da casa velha (contos)
– A moeda de ouro que o pato engoliu (infantil)
– Vintém de cobre

Embora Cora Coralina seja é um grande nome da nossa Literatura, ela só foi realmente reconhecida pelo povo brasileiro depois que o grande Carlos Drummond de Andrade leu uma de suas obras.

Aos 75 anos, Cora teve o seu primeiro livro publicado: Poemas dos Becos de Goiás

Cora recebeu em vida vários prêmios e homenagens. E mesmo após sua morte, em 1985, continuou os recebendo: em 1985 foi criada a Casa Cora Coralina em Goiás e a Biblioteca Infanto-Juvenil de Guaianases recebeu o seu nome.

 

Castro Alves

Antônio de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na Bahia e é considerado o último grande poeta do Romantismo. Foi o escritor mais importante desta fase, a 3ª fase romântica chamada Poesia Social.

Esta fase que se iniciou, aproximadamente em 1860, é marcada pelas idéias liberais e democráticas e pelo envolvimento dos escritores por questões políticas e sociais. A obra de Castro Alves tem como características a indignação com tantas opressões e a compreensão dos problemas sociais. Sua poesia também possui um tom vigoroso e versos expressivos.

Castro Alves recebeu o apelido de Poeta dos Escravos, pois é na poesia abolicionista que ele melhor se sobressaiu. Nas obras Navio Negreiro e Vozes d’África o poeta denuncia as injustiças e clama por liberdade.

A poesia amorosa de Castro Alves é mais sensual do que o comum na época. A mulher aparece envolvida em um clima de erotismo e paixão e está muito próxima a ele. O amor, em suas obras, não é mais platônico.

Obras

  • Gonzaga ou a Revolução de Minas
  • Espumas Flutuantes (1870) única obra publicada em vida
  • A Cachoeira de Paulo Afonso (1876)
  • Os Escravos (1883) nesta obra está incluído o poema O Navio Negreiro também conhecido como Tragédia no Mar

Navio Negreiro é considerado um poema épico. Foi escrito no dia 18 de abril de 1868, mas foi tornado público no dia 7 de setembro deste mesmo ano quando foi declamado durante a sessão magna comemorativa da Independência.

É dividido em 6 partes:

1ª Parte) descrição do cenário em que a ação se passará. Exaltação ao belo natural:

‘Stamos em pleno mar…Doudo no espaço
Brinca o luar – dourada borboleta –
E as vagas após ele correm…cansam
Como turba de infantes inquieta.
(…)

2ª Parte) o poeta elogia os marinheiros. Exaltação do belo humano:

Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu

3ª Parte) uma visão do navio negreiro. Um quadro de tristeza e horror:

“Que cena infame e vil! Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

4ª Parte) descrição mais detalhada do navio. O escritor fala, também, sobre o sofrimento dos escravos:

“Era um sonho dantesco…”

5ª Parte) em oposição à desgraça dos negros aprisionados, temos a imagem do povo africano em sua terra natal:

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje…cúmulo de maldade
Nem são livres pra… morrer…

6ª Parte) presença da antítese: África livre X África que se beneficia com a escravidão:

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro bacante* fria!…
Meu Deus! Meus Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente* na gávea tripudia*?!…
Silêncio!…Musa! Chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto…
(…)

Bacante: mulher devassa, libertina
Impudente: cínico, sem pudor
Tripudia: diverte-se, humilha

Castro Alves foi um grande escritor e até hoje sua obra é analisada e estudada. Sua vida também foi muito curiosa, apesar de ter presenciado o enlouquecimento e suicídio do irmão – José Antônio. Teve diversos amores, mas ao que parece, foi com a atriz portuguesa Eugênia Câmara, que ele viveu um grande amor, pois é ela quem serve de referência para sua poesia lírica-amorosa.

Castro Alves viveu em um tempo de mudanças e transformações:

No mundo

  • Questão Coimbrã em Portugal
  • Positivismo
  • Socialismo
  • Charles Darwin e a teoria da evolução
  • Lutas operárias

No Brasil

  • Decadência da monarquia
  • Luta abolicionista
  • Guerra do Paraguai
  • Pensamento republicano

No final de 1869, durante uma caçada, o escritor feriu o pé. Por causa disso, sofreu uma amputação. Após a operação se retirou para a Bahia e lá, a tuberculose piorou e no dia 6 de julho de 1871, O Poeta dos Escravos faleceu.

 

Cruz e Sousa

nasceu em Desterro, atual Florianópolis – Santa Catarina – em 1861 e morreu em Minas Gerais em 1898. Foi filho de escravos alforriados e criado pelos patrões de seus pais.

Por ser negro, sofreu com o preconceito racial: não pôde, por exemplo, assumir o cargo de Promotor Público em Laguna, Santa Catarina.

Começou sua carreira jornalística e literária em Desterro, colaborando para jornais e escrevendo textos abolicionistas. Nessa época publicou “Tropos e Fantasias” em parceria com Vírgílio Várzea.

Apesar de tanto sofrimento, Cruz e Sousa é considerado o maior e melhor escritor simbolista brasileiro, suas obras “Missal” e “Broquéis” marcam o início deste período literário no Brasil, em 1893.

Os simbolistas procuravam obter em suas obras variados efeitos sonoros e rítmicos, além do gosto pela linguagem rebuscada.

Cruz e Sousa, é claro, não fugiu destas características, além delas, seus textos falam sobre morte, Deus, mistérios da vida e personagens marginalizados.

Sua linguagem é muito rica e seus poemas mais longos possuem grande musicalidade.

Outras características

  • Pessimismo
  • Perfeccionismo formal
  • Metáforas

O Dante Negro (como foi apelidado) também trabalhou em uma companhia teatral e na Estrada de Ferro Central do Brasil.

Infelizmente, teve uma vida sofrida (como já foi dito antes), além do preconceito racial, a tuberculose destruiu sua família e a loucura se apoderou de sua esposa.

Ele mesmo não escapou da terrível doença e acabou morrendo na clínica onde estava internado.

Obras

  • Vida Obscura
  • Triunfo Supremo
  • Sorriso Interior
  • Monja Negra

Obras Póstumas

  • Evocações
  • Faróis
  • Últimos Sonetos
  • O Livro Derradeiro

 

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) nasceu em Recife e é considerado um dos maiores poetas da Geração de 45, assim chamada por rejeitar os “excessos do modernismo” para elaborar uma poesia de rigor formal, construindo uma expressão poética mais disciplinada.

Desde cedo mostrou interesse pela palavra, pela literatura de cordel e almejava ser crítico literário. Conviveu com Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, que eram seus primos. Com apenas o curso secundário mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no funcionalismo público. Três anos depois, através de concurso, mudou-se para o Itamarati, ocupando cargos diplomáticos e morando em várias cidades do mundo, como Londres, Sevilha, Barcelona, Marselha, Berna, Genebra.

Apesar de ser cronologicamente um poeta da Geração de 45, João Cabral seguiu um caminho próprio, recuperando certos traços da poesia de Drummond e Murilo Mendes, como a poesia substantiva e a precisão dos vocábulos, produzindo uma poesia de caráter objetivo numa linguagem sem sentimentalismo e rompendo com a definição de “poesia profunda” utilizada até então. Para o poeta, “a poesia não é fruto de inspiração em razão do sentimento”, mas de transpiração: “fruto do trabalho paciente e lúcido do poeta”.

A primeira obra de João Cabral, Pedra do sono (1945) apresenta uma declinação para a objetividade e imagem surrealista. Já em O engenheiro (1945), percebe-se que o poeta se afasta da linha surrealista, pendendo para a geometrização e exatidão da linguagem, como se ele próprio fosse o engenheiro, economizando as palavras (o material com se constrói) e a objetivação do poema (o propósito do uso do material – a construção terminada).

Nas suas principais obras, como O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), Morte e vida severina (1965), A educação da pedra (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Poesia crítica (1982), Agrestes (1985) e Andando em Sevilha (1990), o poeta revela uma preocupação com a realidade social, principalmente com a do Nordeste Brasileiro; reflete constantemente sobre a criação artística (Catar feijão – poema); aprimora a poética da linguagem objeto, definida como a linguagem que, pela própria construção, sugere de que assunto aborda (Tecendo a manhã – poema). Essa característica de sua obra constitui a principal referência do Movimento Concretista da década de 50 e 60 e de vários poetas contemporâneos, como Arnaldo Antunes.

Morte e vida severina (Auto de natal pernambucano) é a obra mais popular de João Cabral. Nela, o poeta mantém a tradição dos autos medievais, fazendo uso da musicalidade, do ritmo e das redondilhas, recursos que agradam o povo. Ela foi encenada pela primeira vez em 1966 no Teatro da PUC em São Paulo, com música de Chico Buarque. Foi premiada no Brasil e na França e, a partir daí, vem sendo encenada diversas vezes e até adaptada para a televisão.

O poema narra à caminhada do retirante Severino, desde o sertão até sua chegada em Recife e, além das denúncias de certos problemas sociais do Nordeste, constitui uma reflexão sobre a condição humana.

João Cabral é considerado pelos críticos “não apenas um dos maiores poetas sociais, mas um renovador consistente, instigante e original da dicção poética antes, durante e depois dele”. Ele e Graciliano Ramos possuem o mesmo grau ético e artístico, um na poesia, o outro na prosa, que objetiva com precisão uma prática poética comum: deram à paisagem nordestina, com suas diferenças sociais, uma das dimensões estéticas mais fortes, cruéis e indiscutíveis que já se conheceu.

Fontes
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005, p.535-40.

SARMENTO, Leila Lauar. Português: Literatura, Gramática e Produção de Texto. São Paulo, Moderna, 2004, p. 172-4.

 

Fonte da matéria: http://www.infoescola.com/

 

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