Levando minha avó pra uma consulta – Historias Engraçadas





Era uma bela sexta-feira.. daquelas que não poderiam ter começado melhor: no intervalo do colégio, soubemos que seríamos dispensados mais cedo por causa de uma reunião de professores. Nada melhor do que aquela sensação de chegar em casa mais cedo e saber que só na segunda-feira teria algum compromisso.

Tudo indicava que seria uma tarde calma.. com direito a um almoço tranquilo, seguido dos programas esportivos e sessão da tarde com o filme “A lagoa azul” ou “O grande dragão branco”.. mas não foi bem assim que aconteceu…

Minha avó tinha machucado a perna na casa do meu tio e precisava renovar o curativo toda semana em um centro de saúde que ela tinha convênio no bairro Nova Suíça. Como eu “teria” a tarde livre, sobrou pra mim a incubência de levá-la ao médico..

Até aí tudo bem.. nada de anormal.. até porque já estava acostumado a dar uma força pra ela outras vezes. Meu pai nos deixou no hospital a caminho pro trabalho e eu voltaria de ônibus com ela após a consulta.

Chegando no hospital, minha avó, que já estava começando a “caducar” um pouquinho havia perdido completamente a noção de fila. Começou a reclamar porque tinha que ficar esperando e sem ter maldade queria passar na frente dos outros idosos que também aguardavam pela consulta. Eu tentava explicar pra ela que haviam outras pessoas na frente dela, e que a gente precisava esperar um pouco.. mas toda vez que a porta do consultório se abria ela era a primeira a levantar.. rs as pessoas eram muito simpáticas e compreendiam a situação (na verdade acho que estavam rindo da minha cara tentando convencer a minha avó que não era sua vez ainda)..

Eu tinha que arrumar alguma coisa pra ela distrair.. mas não havia nem uma TV na recepção. Peguei uma revista com bastante gravuras, mas ela não dava muita atenção. Gostava mesmo era de conversar. Em poucos minutos contava todos os detalhes da sua vida pra qualquer pessoa que estivesse ao seu lado.. rs

Após várias revistas e vários casos repetidos chegou a sua vez. A consulta não demorou muito. O que mais demorou foi a insistência dela com o médico para aceitar uma nota de 10 reais “pra tomar um cafezinho”. Ele disse que não poderia aceitar pois a mesma já estava paga pelo plano de saúde. Mas ela continuava insistindo… naquela época eu era mais quebrado que biscoito de quinta.. e estava de olho na “arara” na mão dela.. =) Depois de muita insistência o médico sugeriu que ela desse o dinheiro pra mim, pois eu estava lá dando uma força pra ela, mas ela de pronto respondeu que eu não precisava de dinheiro.. ??? Enfim, o médico fingiu que pegou a nota e me passou sem que ela visse, porque senão ela sairia de lá nunca..

Na porta da clínica começou meu pesadelo..

Apesar de estar com seus 85 anos ela ainda era muito lúcida e ativa, e compreendia as coisas facilmente. Parado na calçada em frente à clínica expliquei a ela que tínhamos duas opções de ônibus: o 1502 que passava pela Av. Amazonas, que era mais rápido porém precisava caminhar mais para chegar até o ponto, e o 1207, que passava na mesma rua da clínica, bastando andar poucos metros para chegar até o ponto. Porém o 1207 era daqueles ônibus que passavam toda hora (8hrs, 9hrs, 10hrs, 11hrs..). Apesar de estar ciente da possível demora ela disse que preferiria andar menos e esperar por ele mesmo..

Chegando no ponto de ônibus, não demorou muito para ela começar a ficar inquieta. Não havia 5 minutos que estávamos aguardando e ela já estava reclamando que estava demorando demais.. eu expliquei novamente que o 1207 era demorado mesmo e que era pra ter um pouco mais de paciência.. mas não adiantou..

O ponto começou a ficar lotado.. e junto com o tumulto veio a falta de paciência dela. Em um descuido ela escapou do meu lado e começou a andar pelas pessoas até encontrar uma outra senhora que parecia estar saindo de um culto junto com outras amigas. Minha avó começou a se fazer de coitada, mostrando o curativo na canela e dizendo que não estava aguentando ficar muito tempo em pé. A senhora com quem ela conversava era uma negra bem grande.. escandalosa.. que logo entrou em uma padaria que havia próxima ao ponto perguntando (gritando na verdade) se não havia uma cadeira pra emprestar.. que era um absurdo uma senhora como minha avó ter que ficar em pé esperando pelo ônibus e ninguém ter tomado uma atitude antes..  eu observava a cena à distância e logo pensei: isso  não vai prestar..

Não deu outra…

Depois de colocar minha avó em uma cadeira, a gorda começou a fazer aquele interrogatório.. perguntando pra onde minha avó estava indo.. que ônibus estava esperando, etc. Começou a formar um tumulto em volta da cadeira que minha avó estava sentada.. e eu de longe vendo tudo..

Nessa hora até eu já estava puto pela demora do ônibus.. não via  a hora de chegar em casa logo e aproveitar o resto da tarde.. mas aí minha avó conseguiu se superar: disse pra gordona que já estava esperando ha mais de 1 hora pelo ônibus 1502.. minha avó nem tinha acabado de falar o número do ônibus e a vaca da mulher já soltou um grito: o quêêêêêêêêêê??? O 1502 não passa aqui não minha senhora!!!

Meu coração começou a gelar nessa hora de tanta raiva…

E a gorda não parou por aí.. continuou gritando: cadê seu neto?????? isso é um absurdo.. uma molecagem.. uma falta de respeito.. a senhora nesse estado e ele fazendo a senhora esperar por um ônibus que não passa por aqui..

O ponto inteiro virou para olhar pra mim.. como se eu fosse a pior pessoa do mundo…

A gorda veio pisando forte em minha direção.. chegou tirando satisfação e nem quis ouvir a minha explicação.. eu tentava dizer que minha avó provavelmente tinha confundido o número do ônibus.. mas não adiantava. Ela gritando na minha cara.. eu fechando os olhos pra tentar desviar um pouco da saliva que ela tava jogando na minha direção.. e no meio daquela confusão toda o cacete do 1207 estava passando pelo ponto.. eu não sabia se ia atrás da minha avó ou se corria atrás do busão..

Saí correndo atrás do ônibus (naquela época meu preparo físico era excelente) e consegui alcançar a traseira dele.. a gorda continuava gritando pra mim.. comecei a bater na lataria do busão até o motorista parar.. depois que parou tive que voltar correndo pra buscar minha avó, que estava igual uma rainha na cadeira da padaria (até cafezinho e água tinham arrumado pra ela)..

Com muito custo entramos no ônibus… minha sexta-feira perfeita tinha ido por água abaixo.. e minha avó pra finalizar ainda solta: você viu como aquela senhora é gentil? =\

Pelo menos a “arara” continuou no meu bolso.. mais do que merecido depois daquela raiva toda.. =)

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