Gllty, a profissional mais troll dos jogos de luta

A comunidade de jogos de luta nos EUA vai muito além das grandes cidades nas costas oeste e leste. É justamente no meio desses dois extremos do país, no centro-oeste americano, que nasceu uma das melhores jogadoras profissionais de lutinha do mundo: Leah “Gllty” Hayes, de St. Louis, no Missouri, é patrocinada pela empresa de controles arcades GiantSword e tem rodado a cena competitiva por mais tempo do que muita gente imagina.

A própria jogadora chega a admitir que não é lá um nome muito forte nas competições de Street Fighter, mas não se deixe enganar pela sua humildade – Gllty é uma jogadora das boas e que não se intimida em jogar no estilo dela. Aliás, se você acabar a enfrentando, é bom ficar esperto: ela vai te trollar um pouco.

 

Frustrando o oponente

Ela parece até mais nova do que os seus 27 anos. Quando adolescente, Gllty parecia uma menina de oito anos perambulando nos fliperamas locais. Foi com Tekken 5 que ela entrou na cena competitiva. Enquanto a maioria jogava Street Fighter III: Third Strike, Capcom vs SNK 2 e Marvel vs Capcom 2, Gllty nem dava atenção pra esses jogos. Foi assim até o lançamento de Street Fighter IV, em 2009, quando começou a viajar para competir pelo país.

No lançamento de Street Fighter IV, Gllty teve uma crise-de-boneco e não conseguia escolher com quem lutar. Na época, ela acabou pegando o Dhalsim. Quando Super Street Fighter IV chegou, ela acabou indo pra Makoto, “O pior boneco do jogo”, como ela mesmo fala. Então, por que raios alguém escolheria bonecos conhecidos por não serem bons pra competir? Para desvendar esse mistério, precisamos entender um pouco mais do que se passa na cabeça de Gllty e a sua abordagem pra jogos de luta. Só assim podemos começar a sacar as suas intenções.

“Eu gosto dos bonecos que usam mecânicas de uma forma que atrapalhem outras pessoas”, falou Gllty ao Red Bull Games. “Acho que é um jeito interessante de abordar o jogo, porque tira as opções da mesa.”

Jogar com esses tipos de boneco é muito mais um risco do que recompensador. Geralmente, os jogadores desistem pelas desvantagens de dano ou pouca vida, como no caso do Dhalsim e Makoto, respectivamente.

“Você precisa fazer muitas decisões pra jogar tudo e estar disposto a perder. Com o Dhalsim, você tem que tentar ser apelão. É irônico o jeito como [o boneco] foi balanceado. A filosofia dele é impedir as pessoas a chegar onde elas querem”, disse.

Ser capaz de atrapalhar o oponente explica muito sobre o seu plano com bonecos como o Dhalsim, porque essa estratégia frustra o adversário mais do que qualquer coisa – e um oponente frustrado fica mais suscetível a tomar riscos ou fazer algo que eles normalmente não fariam. É nessa hora que o destino de outros competidores fica nas mãos de Gllty. Mas, apesar de parecer uma estratégia sólida, nem sempre ela funciona.

“Deve ser por isso que perco tanto, porque eu gosto de me extrapolar ou deixo alguém furioso. Eles ficam muito agressivos e eu não consigo me adaptar a isso”, Gllty diz.

O truque do desaparecimento

Gllty continuou a jogar com Makoto nos anos seguintes e, graças a umas melhorias que fizeram no boneco, ela se tornou uma personagem letal. “É estressante jogar com ela se alguém está jogando casualmente, porque dá pra perder o jogo. É típico da Makoto, mas você conseguir se condicionar a ela, percebe que os outros jogadores se atrapalham por ficarem com medo. Dá pra fazer várias coisas que resulta em uma morte rápida”, disse.

Apesar de Gllty citar vários jogadores de Guilty Gear e Tekken da região como AKA e Slips, assim como os mais conhecidos como NerdJosh, Ryan ‘FilipinoChamp’ Ramirez, Arturo Sanches, Misse e Haitani como fonte de inspiração pra competir, ela também fala de um jogo peculiar que a influencia: World of Warcraft.

Houve um tempo em que Gllty simplesmente sumiu da cena de jogos de luta. Durante esse tempo ela caiu de cabeça no PvP de World of Warcraft. Mesmo nele, Gllty tentou achar o que faz o game divertido pra outros jogadores e tentava tirar isso deles, o que deve ter deixado muito jogador de PvP estressado. Gllty também aproveitou pra se conhecer melhor e se achar fora dos jogos que a fazia escapar da realidade da pequena e conservadora cidade no qual ela viveu a vida toda.

“Eu senti que amadureci e desapareci da cena por um tempo porque eu precisava de um tempo pra me descobrir. Precisei de muito tempo pra me refinar”, disse.

Naquela época, Gllty saiu de seu casulo de World of Warcraft, eventualmente se reintegrando à comunidade de games de luta com uma nova visão de mundo e perspectiva da cena como um todo.

“Me senti confiante o suficiente pra voltar a frequentar os fliperamas de novo. Eu acho que as pessoas que me reconheceram não se tocaram que havia passado quase 10 anos. Eu não era mais a criança chata. Eu me tornei uma garota que queria jogar”, contou.

O golpe a longo prazo

Hoje em dia você pode encontrar Gllty competindo nos maiores eventos em todas as regiões dos EUA, como Final Round, NEC e CEO na costa leste, Season’s Beatings e Combo Breaker no centro-oeste, além da SoCal Regionals e do EVO na costa oeste.

Apesar de que a abordagem dela pra jogos de luta possa ser considerada psicológica, parte disso tem a ver com o constrangimento social das suas estratégias. Não que ela faça isso por mal – ela só curte muito ser troll, se encaixando no papel de vilã –, mas ela ainda é uma jogadora com habilidades subestimadas.

“Não sou uma boa jogadora nos fundamentos, mas sou boa em irritar as pessoas. No Ultimate Marvel vs Capcom 3, quero colocar tanta coisa na tela que ninguém mais possa fazer nada. Eu gosto dessa situação de xeque-mate. Tudo o que a outra pessoa pode fazer é olhar”, falou Gllty.

“Não faço isso pra arruinar o dia de alguém. Existe um atrito mental que faz com que as pessoas fiquem tristes e eu quero convencer elas a desistirem.” É quase como se ela estivesse dando um golpe a longo prazo nos outros jogadores, porque se alguém jogar com ela de novo depois, vai relembrar do gosto que aquela frustração deixou na boca na última vez.

Uma das trolladas mais engraçadas de Gllty aconteceu na 18ª edição do Final Round. Quando ela e Julio “The Yun” Fuentes estavam prontos pra começar a partida no stream, Gllty estendeu a mão pra cumprimentá-lo, mas quando Fuentes estende a dele, Gllty tirou a mão e, na sequência, fez um par de orelhas de coelho. Dá pra ver ela dizendo “muito lento” no stream, pegando Fuentes de surpresa.

“O que foi isso?”, falou o comentarista David “UltraDavid” Graham.

“Ela é muito troll”, respondeu o outro comentarista Skisonic, enquanto os dois riam.

“Jogo muito com ela nas transmissões que faço ao vivo e as nossas partidas sempre acabam com os momentos mais estúpidos que você possa imaginar”, UltraDavid disse durante um dos seus streams, ao mesmo tempo em que enalteceu as habilidades dela com a Makoto.

Gllty não ganhou nenhum torneio da Capcom Pro Tour. Ela nem mesmo se classificou pro EVO em 2015, mas nenhum desses tropeços parece aborrecê-la. Na real, ela está confiante com o que vai conseguir fazer em Street Fighter V.

“Eu comecei tarde e foi meio ‘meh’. Eu me coloco na posição de fazer um pouco mais com o próximo jogo. Algumas coisas interessantes podem acontecer com Street Fighter V”, falou Gllty.

Se você não adivinhou com que boneco Gllty vai jogar em Street Fighter V, a mãe dela dá uma dica. “Oh céus, querida, você precisa jogar com o F.A.N.G”. “F.A.N.G é todo espalhafatoso e pateta de uma certa forma. Eu gosto de bonecos desagradáveis. No jogo, eu posso ser aquela pessoa e isso não é algo ruim”, falou Gllty.

Nem sempre é preciso ser um jogador que vence todos os torneios pra contribuir com a comunidade de jogos de luta. Esse é o caso de Gllty. Ela é uma jogadora com uma perspectiva diferente em jogos de luta e tem um desejo de melhorar. Ela até mesmo joga Super Smash Bros, porque tem uma cena local forte e organizada. A jogadora também contribuiu pra termos uma melhor representação feminina e LGBT na comunidade de jogos de luta, apesar da própria não ter ciência do seu impacto na cena.

“Você percebe muitas mulheres entrando pra competir. Tem a Persia nos comentários de Marvel, a Milktea em Smash, além da StarmieG, Sherry e Matsuri. Elas se mexem, conquistam resultados. As adversidades que a vida coloca nos seus caminhos as moldam. As jogadoras que resistem ficam quatro vezes mais fortes do que aqueles homens que tentam tirar o que é delas. Eu admiro esse tipo de força”, fala Gllty.

“Eu não sei qual é o meu valor na comunidade no geral, mas veremos o que acontece com o Street Fighter V.”

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